2014
Membro Titular
Cadeira 34 - 2º Titular
Patrono: Manoel Pedro dos Santos Lima
Antecessor(es):
1º Titular - Acadêmico Fundador - Arnaldo Moura
Posse: 18/11/1993
João Manuel Cardoso Martins nasceu em junho de 1947, em um pequeno vilarejo de Portugal. Ainda criança, emigrou para o Brasil no início dos anos 1950, junto com os pais, José e Maria do Carmo Martins, que se radicaram na região de Londrina.
Apesar da origem humilde e das dificuldades financeiras, realizou o sonho de se tornar médico, concluindo o curso em Curitiba, pela Universidade Católica do Paraná (atual Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUCPR), em 1971. Logo após, foi convidado a integrar o corpo docente da instituição, onde lecionou por mais de 40 anos.
Especialista em Reumatologia e Clínica Médica, exerceu essas áreas concomitantemente ao longo de toda a carreira, com um tirocínio clínico excepcional e um senso brilhante para interpretar o equilíbrio entre o comprometimento orgânico e o psicossomático. Membro da Academia Paranaense de Medicina, recebeu as principais condecorações do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) e do Conselho Federal de Medicina (CFM), incluindo a Medalha de Lucas – Tributo ao Mérito Médico, do CRM-PR, e a Comenda Moacyr Scliar de Medicina, Literatura e Artes, do CFM.
Suas incursões na arte das palavras iniciaram-se ainda na fase acadêmica, com a circulação do jornalzinho “O Crânio” entre os estudantes, que trazia um viés político em plena ditadura militar. Em 2002, aceitou o desafio de criar um canal de interação entre médicos, produzindo um livreto com dicas profissionais e, posteriormente, um encarte no Jornal do CRM-PR, batizado de “Iátrico”. O sucesso transformou-o na revista “Iátrico”, publicada pelo CRM-PR. Em 2009, lançou o livro “Jaculatórias – Sugestões para o Dia a Dia do Médico”, com 168 páginas repletas de lições reflexivas, usando palavras como instrumento de provocação e aprendizado. O CFM, por sua vez, publicou “Primeiras Impressões – Iátrico em Perspectiva”, com 14 capítulos e 406 páginas, reunindo coletâneas de seus artigos.
A pergunta recorrente sobre João Manuel era como uma pessoa conseguia tempo, disposição, garra, perseverança e capacidade intelectual para ser um excelente clínico e reumatologista, além de poeta, escritor, amante da música, atento à política e à economia nacional, sem deixar de ser um esposo e pai presente e amoroso.
Gostaríamos de finalizar com um dos ensinamentos mais sublimes deixados em seus escritos: o da fragilidade. Diz ele: “O paciente se aproxima por suas fragilidades, por sua essência de vidro, como diria o poeta. É quando o paciente compartilha suas vulnerabilidades, suas fraquezas, que, ao emergirem, fazem noite o seu viver. Como sabemos, gostamos mesmo é de representar força, o super-herói infantil que habita todos nós. Nesse caso, o da fragilidade, precisamos ser delicados, não usar o imperativo da técnica, mas o da sensibilidade. Não submetermos o paciente à nossa vontade, mas às suas necessidades, por não termos a técnica de transmutar fragilidade em força, em reparo completo. Quando muito, conseguimos que a conscientização dessas fragilidades gere autoconhecimento, para que não as necessite usar no cotidiano. Isto é, FRÁGEIS – a tal essência de vidro – sempre seremos, mas reconhecendo-as não precisaremos usá-la no dia a dia. A não ser, a dois, na intimidade, e aí será sublime. Aproximação por fragilidades, aquelas que não queremos descortinar, apenas viver. A consciência das vulnerabilidades é a nossa força.”
Sua dedicação ao ensino rendeu homenagens póstumas, como a edição nº 43 da revista “Iátrico” (2024), dedicada ao seu pensamento crítico, e o Concurso Literário Prof. João Manuel Cardoso Martins, promovido pela Sociedade Paranaense de Reumatologia para fomentar a escrita médica.
Casou-se em 29 de julho de 1972 com Maria Isabel da Fonseca Martins, com quem teve quatro filhos, Juliana, Flávia, Vitor e João Luiz, também médico. A família cresceu com sete netos: Maria Clara, Mathias, João Guilherme, Maitê, Lívia, Cecília e Isabela. Entre suas paixões pessoais, destacavam-se a leitura de Fernando Pessoa, as canções de Frank Sinatra, o time de coração Vasco da Gama, os vinhos portugueses e o chocolate Godiva.
João Manuel Cardoso Martins faleceu em 18 de novembro de 2014, aos 67 anos, mas deixou um legado humanista e multifacetado na medicina paranaense e brasileira, integrando ciência, literatura e empatia. Sua memória vive no exemplo de uma vida dedicada ao bem comum, à família e à arte das palavras.