1864 1948
Patrono
Cadeira 23
Patrono: João Cândido Ferreira
João Cândido Ferreira, filho de Ana Leocadia Maciel e de João Cândido Ferreira, nasceu na Lapa, Paraná, no dia 21 de março de 1864. Recebeu dos pais esmerada educação e seguiu para o Rio de Janeiro onde completou o curso de Humanidades e matriculou-se na Faculdade de Medicina. Destacou-se nos estudos e, ainda acadêmico, frequentou o Serviço de Clinica Médica do professor Torres Homem. Demonstrando o temperamento liberal, engajou-se nos movimentos abolicionista e republicano. Formou-se em 1888 e obteve o grau de doutor com a tese Diagnóstico e Tratamento das Neurites Periféricas.
João Cândido iniciou a carreira na Lapa em amistosa convivência com Manoel Pedro Santos Lima que lá clinicava. Anos mais tarde, em conferência na Associação Médica do Paraná que celebrava o centenário de Manoel Pedro, fez generosas referências ao colega com quem conviveu uma década e a quem se referiu como “um mestre insigne”.
Ganhou renome na Lapa e o prestígio e a estima que merecia de seus concidadãos que elegeram-no prefeito municipal em 1892. Naquele período a cidade foi submetida ao histórico cerco em que por dias os florianistas, em decisiva ação para a vitória final, opuseram brava resistência ao assédio dos maragatos. Durante o cerco João Cândido dirigiu o Hospital de Sangue, desvelou-se no atendimento dos feridos e assistiu os últimos momentos de vida do general Carneiro.
Foi eleito deputado estadual em 1896 e deputado federal em 1901. Contudo, o envolvimento político não representou o abandono da Medicina e dos estudos, pois datam dessa época várias de suas publicações médicas.
Em 1899 destacou-se nacionalmente ao ser escolhido membro correspondente da Academia Nacional de Medicina apresentando a memória Influência da Gravidez Sobre as Doenças do Coração em que, baseado em observações próprias, defendia a ideia de amenizar a aplicação do célebre aforismo de Peter: Fille, pas de mariage; femme, pas de accouchement; mère, pas de alaitment.
Em 1904 foi eleito vice-presidente do Paraná e em 1907, presidente do Estado, mas desiludido com as artimanhas partidárias da coligação que reconciliava maragatos e pica-paus, renunciou ao cargo e voltou a dedicar-se exclusivamente à Medicina. Passou a trabalhar na Santa Casa de Misericórdia de Curitiba chefiando uma das enfermarias.
Em 1913 foi estudar em Paris e na volta tornou- se catedrático da cadeira de Clínica Médica na Faculdade de Medicina do Paraná, que ele e o amigo e cunhado Victor do Amaral haviam ajudado a fundar. João Cândido foi um dos baluartes da faculdade e muito contribuiu para consolidá-la nos anos difíceis do início da Instituição.
Em 1916 inaugurou o ensino clínico na enfermaria que chefiava na Santa Casa. Lendário mestre das gerações de médicos que nas décadas seguintes passaram pela faculdade, João Cândido ao mesmo tempo em que impunha respeito era cortês e bondoso. Para seus contemporâneos foi inevitável o paralelo entre ele e Miguel Couto, o grande mestre de Clínica Médica do Rio de Janeiro. Exerceu a cátedra por três décadas e serviu de exemplo aos alunos. Inúmeras vezes homenageado e paraninfou a turma de seus primeiros alunos, também a primeira de médicos formados na Faculdade de Medicina do Paraná, e foi patrono da última turma que recebeu seus ensinamentos.
Publicou muitos trabalhos científicos, alguns de repercussão nacional, entre eles: Superalimentação na Tuberculose Pulmonar; Profilaxia da Febre Tifóide em Curitiba; Charlatanismo, Balanço Metapsíquico, Espiritismo, Injeções Intradérmicas de Histamina Contra Algias e Doenças Alérgicas. Também escreveu depoimentos políticos e estudos biográficos, como Gomes Carneiro e o Cerco da Lapa, Vida do Dr. Faivre, Dr. Manoel Pedro, História dos Trabalhos Médicos Cirúrgicos Durante o Cerco da Lapa.
Demonstrou a importância do contágio hídrico na febre tifoide e agiu decisivamente para interromper o uso de água contaminada e cessar as epidemias na Lapa. Também se preocupou e publicou vários artigos sobre o tratamento e a prevenção da tuberculose. Em certa ocasião argumentou contra a superalimentação no tratamento da doença envolvendo-se em memorável polêmica na imprensa curitibana com João Evangelista Espíndola, ardoroso defensor da polifagia. O episódio permite ressaltar que João Cândido, embora tivesse personalidade amena, cavalheiresca e paternal, era firme e combativo ao defender suas ideias.
Morreu em Curitiba, em 20 de fevereiro de 1948. Deixou quatro filhos médicos: Leonidas do Amaral Ferreira, professor de Oftalmologia, Celso do Amaral Ferreira, professor de Otorrinolaringologia, Murilo do Amaral Ferreira, livre-docente de Clínica Médica e Alceu do Amaral Ferreira, clínico.

João Cândido Ferreira foi, por excelência, Professor de Medicina. Na Santa Casa, onde ensinou durante quarenta anos, um belo bronze, com sua figura, obra de João Turim, pereniza sua memória.