1848 1886
Patrono
Cadeira 32
Patrono: Leocadio José Corrêa
Leocadio José Corrêa, filho de Gertrudes Pereira e de Manoel José Corrêa nasceu em Paranaguá, Paraná, no dia 16 de fevereiro de 1848 e passou a infância na cidade natal.
Na época da transição entre a velha sociedade colonial e o período imperial Paranaguá era o centro político do conservadorismo dos comerciantes do litoral, em contraponto com o liberalismo dos fazendeiros e tropeiros de Curitiba e dos Campos Gerais. Leocadio criou-se em ambiente familiar estreitamente ligado aos conservadores, entre eles alguns de seus parentes, e isto explica a orientação partidária e a imagem de benemérito dos humildes, ainda que tais laços o distanciassem das causas liberais, como a República e a Abolição dos escravos.
Há uma curiosa questão a respeito da ortografia do sobrenome de Leocadio. A maioria dos membros da família adotou o Correia, também usado por quase todos que escrevem sobre ele, inclusive por seu bisneto e biógrafo Valério Hörner Junior. Contudo, em vários autógrafos, na tese de doutoramento e no cartão de visita Leocadio usava o Corrêa.
Após completar a educação primária em Paranaguá, foi para o seminário em São Paulo e depois para o Colégio Episcopal de São Pedro de Alcântara, no Rio de Janeiro. Em 1868 deixou o seminário e matriculou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Durante o curso salientou-se pela invulgar inteligência e excelente memória. Obteve o grau de doutor com a tese Da Litotrícia, aprovada com distinção em 28 de dezembro de 1873. Foi o primeiro paranaguense a se formar em Medicina.
Em 1872 o célebre professor Torres Homem publicou as clássicas Lições de Clínica Médica e no prefácio escreveu: Não era minha intenção publicar estas lições; porém entre meus discípulos há um que dispõe da rara habilidade de poder extratar fielmente os discursos que ouve sem servir-se para isto dos sinais de taquigrafia; esse moço, que se chama Leocadio Correia e que tem tomado sempre minhas lições tomou estas, que aparecem hoje publicadas.
Em Paranaguá trabalhou na Santa Casa de Misericórdia, o primeiro hospital fundado antes da emancipação da Província. O sucesso na clínica veio rapidamente e a fama de humanitário logo se espalhou pelas cidades do litoral paranaense.
Em 1875 foi nomeado inspetor sanitário dos portos de Paranaguá e de Antonina e passou a ter importante papel nas ações de saúde pública em prol da defesa sanitária, pois pelos portos entravam as doenças epidêmicas, como a varíola, o cólera e a febre amarela, originárias das províncias do Norte e do estrangeiro. Em 1878 ocorreu um surto virulento de febre amarela e em 1882 a varíola invadiu a cidade e ele trabalhou incansavelmente. A assistência que deu aos pacientes, e aos suspeitos de contaminação isolados no lazareto da ilha das Cobras, fizeram crescer o prestígio de Leocadio.
Em função de deveres funcionais viajava regularmente a Curitiba, onde conheceu José Cândido da Silva Murici e Trajano Joaquim dos Reis e com ambos estabeleceu uma fraterna amizade. Os três eram os expoentes da medicina paranaense da época.
Os laços familiares com o primo e cunhado, Barão do Serro Azul, e com o tio, Eufrásio Correia, então presidente da Assembleia Provincial, tornaram inevitável que Leocadio se envolvesse na política. Elegeu- se deputado provincial do Partido Conservador nos mandatos de 1876/77 e de 1878/79 e em seguida vereador em Paranaguá.
Leocadio exerceu a Medicina até os últimos dias de vida e junto à população carente, pela dedicação e desapego material com que sempre procedeu, desfrutava de inigualável apreço. Embora fosse dedicado ao serviço dos humildes e nutrisse simpatia pela abolição da escravatura, os vínculos com o Partido Conservador o inibiam de sustentar posições públicas em favor das correntes liberalizantes. Ainda assim, na vida privada, tomou várias atitudes em favor dos escravos. Morreu dois anos antes da Abolição.
Em 1885 foi nomeado inspetor paroquial de ensino em Paranaguá pelo então presidente da Província, Alfredo D’Escragnolle Taunay, numa tentativa de neutralizar a influência republicana nas escolas exercida principalmente pelo professor José Cleto da Sil- va, o que gerou uma acirrada polêmica entre ele e Leocadio.
Na vida social paranaguense, distinguiu-se nas tertúlias do Clube Literário como literato, orador e teatrólogo.
Privilegiado pela natureza com dotes de intelecto e de espírito, teve uma existência breve. Aos trinta e oito anos a saúde de Leocadio começou a declinar. Dores nas pernas e inchaço nos pés atormentaram-lhe nos últimos meses de vida e o fizeram suspeitar que tivesse contraído beribéri. A fase final da doença foi rápida. Em 5 de maio de 1886 deixou a Inspetoria Paroquial do Ensino e o pedido de aposentadoria foi seu último ato público. Morreu dias depois, em 18 de maio.
As manifestações públicas de pesar por parte das autoridades, a começar pelo presidente da Província, e da imprensa foram eloquentes, não faltando nem mesmo o testemunho insuspeito e veemente do professor José Cleto da Silva, ressaltando as virtudes de Leocadio.
Embora não haja qualquer indicação de que em vida tenha tido ligação com o espiritismo, o carisma de Leocadio Corrêa perenizou-se no imaginário popular e revestiu-se de um novo componente, o de seu espírito continuar a ação benfazeja após a morte, conforme a crença difundida pelos adeptos do kardecismo
Primeiro médico paranaguense, Leocadio José Corrêa tem a memória venerada na cidade. Seu túmulo, ornado por um belo busto em mármore de Carrara, é um ponto de peregrinação taumatúrgica pelos adeptos da doutrina kardecista. Na fotografia o busto de Leocadio, mandado erigir por sua irmã a Baronesa de Serro Azul.