1862 1953
Patrono
Cadeira 50
Patrono: Victor Ferreira do Amaral e Silva
Victor Ferreira do Amaral e Silva, filho de Julia Moreira do Amaral e de Serafim Ferreira de Oliveira e Silva, nasceu no dia 9 de dezembro de 1862 na Fazenda Sant’Ana, na Lapa. Aos nove anos foi internado em Curitiba no colégio do professor alemão Jacob Müller e aos onze anos foi para o Rio de Janeiro cursar Humanidades no famoso colégio Abílio. Ali conviveu com Raul Pompéia, Olavo Bilac, Luiz Murat e Dias da Rocha e laureou-se com medalha de ouro. Em 1878 entrou na Faculdade de Medicina e graduou-se em 1884. Com a tese Influência da Prenhez Sobre as Moléstias Pulmonares obteve o grau de doutor, que recebeu das mãos do Imperador Dom Pedro II em 24 de dezembro de 1884.
Em 1885 começou a atender no consultório instalado na Farmácia do Chico Carvalho à rua Doutor Murici, em Curitiba, e também exerceu por alguns anos as funções de médico-adjunto do Exército.
Sempre demonstrou interesse e vocação para o ensino e por muito tempo lecionou francês no Liceu Paranaense, depois chamado de Ginásio Paranaense. De 1893 a 1894 ocupou o cargo de superintendente do ensino público. De 1900 a 1904 foi Diretor Geral de instrução pública. Em sua gestão lançou a pedra fundamental e presidiu a cerimônia de inauguração do edifício do Ginásio Paranaense, à rua Ébano Pereira, hoje ocupado pela Secretaria de Cultura.
Pertenceu ao Clube Republicano desde 1887. Em 1890, logo após a proclamação do novo regime, tomou parte da primeira Câmara Municipal de Curitiba. Em 1892 elegeu-se deputado estadual e participou da elaboração da Constituição Estadual.
Foi reeleito deputado estadual em 1906, 1907 e 1908, mandato exercido simultaneamente ao de deputado federal. Na Câmara Federal apresentou um importante projeto instituindo o ensino superior de agricultura no Brasil, assunto sobre o qual muito se interessava. Em 1897 fundou a Sociedade de Agricultura do Paraná e promoveu a Exposição Industrial Paranaense com grande sucesso. Em 1903, a pedido da Sociedade Nacional de Agricultura, escreveu a monografia Herva Mate ou Chá do Paraná, considerada a primeira obra de valor sobre o assunto.
No quadriênio 1900-1904 elegeu-se vice-governador do Estado, na chapa de Francisco Xavier da Silva.
Em decorrência das atividades políticas militou na imprensa, como redator-chefe e foi um dos fundadores do jornal Diário do Paraná.
Durante os anos de 1893 e 1894, no posto de capitão-médico da Guarda Nacional, prestou assistência aos feridos no Hospital Militar. Em 1897 foi nomeado médico-legista e trabalhava no necrotério da Santa Casa. Na administração do presidente Caetano Munhoz da Rocha assumiu a Diretoria Geral de Saúde Pública do Paraná e desenvolveu importantes ações sanitárias nas epidemias de febre tifoide em Curitiba em 1917, na de gripe espanhola em 1918 em várias cidades e na de peste bubônica em Paranaguá em 1926. Efetivou-se no Corpo Clínico da Santa Casa de Misericórdia em 1897. Na ocasião apenas Antonio Rodolfo Lemos e João Evangelista Espíndola prestavam assistência aos indigentes. Integrado no Hospital de Caridade, nele serviu por trinta e cinco anos, cabendo-lhe, depois, a chefia da enfermaria de Ginecologia. Preocupava-o a falta de uma maternidade que atendesse as parturientes necessitadas e em 1908 fez um generoso donativo à Santa Casa para tal fim. Em 1930, com a inauguração da Maternidade do Paraná pela Universidade, ele transferiu para lá a cadeira e a clínica e deixou a Santa Casa.
Victor do Amaral foi uma importante figura nas áreas social, médica e política paranaense, mas é indiscutível que seu nome destaca-se acima de tudo pelo papel que teve ao fundar e consolidar a Universidade do Paraná.
A Universidade do Paraná, quem nos diz é o próprio Victor do Amaral, surgiu quase ex-abrupto, e sem grande período de incubação - foi o produto de um gesto quase impulsivo, uma obra de audácia - audentes fortuna juvat. Em 1912, vislumbrando as possibilidades que a Lei Orgânica do Ensino referendada por Rivadávia Correia oferecia à criação de cursos superiores, um grupo de intelectuais, como Nilo Cairo, Hugo Simas, Euclides Bevilaqua e Daltro Filho, lidera- do por Victor do Amaral resolveu criar a primeira universidade brasileira. Em 19 de dezembro do mesmo ano, com o apoio de Carlos Cavalcanti, presidente do Estado, a Universidade foi solenemente instalada no edifício do Congresso Legislativo do Paraná. A história e as vicissitudes da Instituição são conhecidas e marcaram uma nova fase na vida cultural e política do Paraná. O curso de Medicina começou a funcionar em 1914 e teve onze alunos matriculados que se formaram em 1919. Victor do Amaral preocupou-se em instituir a Maternidade do Paraná, em agosto de 1914, para atender as classes carentes e oferecer oportunidade de ensino às alunas do curso de Obstetrícia. Para o ensino das cadeiras clínicas da Faculdade de Medicina, Victor do Amaral, chefe da enfermaria de Ginecologia da Santa Casa, obteve a cooperação da Irmandade.
A partir de 1916 o Hospital de Caridade e o Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz franquearam as enfermarias ao ensino prático, o que se estendeu até 1961 quando foi inaugurado o Hospital de Clínicas da já federalizada Universidade.
O papel de Victor do Amaral foi decisivo para manter em funcionamento a Faculdade de Medicina do Paraná, que surgiu quando as exigências da nova lei de ensino superior de 25 de maio de 1918 levaram à extinção da Universidade e à sua substituição por faculdades isoladas de Medicina, Engenharia e Direito. Na Faculdade de Medicina, Victor do Amaral continuou regendo a cadeira de Ginecologia e Obstetrícia para a qual fora eleito na constituição da primeira Congregação universitária. Em 1923 a disciplina foi desdobrada, cabendo-lhe a Obstetrícia e a Miguel Isaacson a Clínica Ginecológica. Dirigiu a Faculdade de Medicina até a restauração da Universidade em 1947, quando voltou a ser reitor. Na direção da Faculdade foi o anima e cuore e principal responsável pela sobrevivência da Instituição. A Universidade do Paraná foi, como o próprio Victor ressaltou, uma obra de audácia, mas a audácia cobrou seu preço. Passada a fase propícia da lei Rivadávia, vieram os prosaicos obstáculos da lei Carlos Maximiliano e urgia manter em funcionamento o sem-número de cadeiras para as quais não havia professores qualificados. Vencer o derrotismo e a inveja profissional e, ainda, comprovar um patrimônio que mal existia, Victor do Amaral a tudo enfrentou com pertinácia, movendo-se politicamente no plano federal, recrutando improvisados catedráticos e avalizando títulos de liquidez duvidosa. Salvou a Faculdade e a Universidade.
Ele também sempre se preocupou em criar condições para o ensino prático de Obstetrícia e a primeira Maternidade foi instalada em 1914, no edifício original da Universidade do Paraná, que mudara para o prédio da praça Santos Andrade. Em 1916 a Maternidade foi transferida para um imóvel mais adequado, à avenida Sete de Setembro e lá funcionou até 1930, quando foi inaugurada a Maternidade da avenida Iguaçu. Final- mente, em 1961 o ensino passou a ser administrado em prédio anexo ao Hospital de Clínicas.
A liderança de Victor do Amaral na cátedra foi sempre aceita com naturalidade, dado ao prestígio que tinha no panorama nacional da Tocoginecologia e ao respeito de que era alvo na Universidade. Sempre teve um grupo de diligentes auxiliares, entre os quais dois de seus filhos, Victor, que o sucedeu, e Milton Ferreira do Amaral.
Na direção da Faculdade de Medicina, em tempos difíceis e nos de bonança, soube ser firme e tranquilo mostrando pertinácia admirável, sem nunca perder a equanimidade.
Fez muitas viagens de estudo à Europa e estagiou em Paris nos renomados Serviços de Baudelocque e Tarnier. Em 1930, convidado pelo governo da Polônia a visitar o país, foi condecorado com a Ordem da Polônia Restituta em reconhecimento ao auxílio que prestou aos professores poloneses que atuaram na Universidade do Paraná.
A Cruz Vermelha Brasileira tornou-o membro honorário da filial do Paraná por ter criado em 1914 o curso de Enfermeiras Socorristas de Guerra e várias organizações científicas e culturais distinguiram-no com outras honrarias.
Educador preocupado com a cultura física da juventude trouxe do Rio de Janeiro, em 1904, a primeira bola de futebol que deu aos alunos do Ginásio Paranaense. Com ela foi disputada a primeira partida do esporte no Paraná.
Morreu no dia 2 de fevereiro de 1953 aos noventa e um anos de idade.
Imagem pouco conhecida de Victor do Amaral, fotografado no dia de sua, formatura no Rio de Janeiro, em 1884.
Primeira diretoria da Universidade do Paraná, aclamada em 19 de dezembro de 1912. Sentados, ao centro o diretor Victor do Amaral; à sua esquerda, o vice-diretor Euclydes Bevilaqua e, à direita, o secretário, Nilo Cairo. De pé, à esquerda o tesoureiro João Soares Barcellos, ao centro o subsecretário Daltro Filho e à direita o bibliotecário Hugo Gutierrez Simas.