1906 1993
Patrono
Cadeira 54
Patrono: César Beltrão Pernetta
César Beltrão Pernetta nasceu em Curitiba, Paraná, em 11 de outubro de 1906, filho de João David Pernetta e Laura Beltrão Pernetta.
A família Pernetta no Paraná foi formada pelos descendentes do imigrante cristão-novo Antonio José Antunes que se fixou no Rio de Janeiro. Seu filho Francisco David Antunes veio para Curitiba aos doze anos de idade e aqui estabeleceu-se como comerciante. Conhecido pela alcunha de perneta, espontaneamente obteve mudança de seu nome de família para Pernetta. Seu filho João David Pernetta foi engenheiro e professor da Universidade do Paraná, deputado estadual e federal e um dos fundadores do positivismo no Paraná. Laura Beltrão, filha do desembargador pernambucano Francisco Cunha Machado Beltrão e sua esposa Rosa Branca Correia Gutierrez era membro de tradicional família paranaense.
Durante o curso secundário, César distinguiu-se como aluno brilhante do Ginásio Paranaense. Em seguida matriculou-se na Faculdade de Medicina do Paraná, pela qual obteve o grau de doutor em Medicina em 1929. Recebeu a medalha Nilo Cairo, concedida ao melhor aluno da turma. À época não era mais exigi- da defesa de tese ao fim do curso médico, mas César defendeu tese sobre Anorexia do Latente, aprovada com distinção, e demonstrava seu interesse especial pela Pediatria. Estava também decidido a dedicar-se ao ensino universitário, tanto que poucos meses após concluir o curso, em março de 1930, submeteu-se a concurso público para regência da cátedra de Patologia Geral da Faculdade de Medicina do Paraná. Para o concurso, a tese de livre escolha foi Papel da Idade na Patologia Geral, e a tese sorteada foi Doença, Afecção e Diathese; seu conceito atual. Ao mesmo tempo em que iniciava a carreira acadêmica fazia-o na prática profissional, tendo sido nomeado médico do Hospital de Crianças de Curitiba. Coube-lhe a responsabilidade pelo primeiro ambulatório e, depois, pela primeira enfermaria do recém-criado Hospital. No mesmo ano foi convidado por Raul da Costa Carneiro, catedrático de Clínica Pediátrica da Faculdade de Medicina do Paraná, para o cargo de médico-efetivo do Instituto da Criança, à Rua Comendador Araújo, instalado no prédio que fora a primeira sede da Universidade do Paraná. Embora muito jovem, exercia papel de liderança no meio médico curitibano, como demonstra a fundação, em 25 de março de 1934, da Sociedade de Pediatria do Paraná. O convite aos interessados foi feito em seu nome, de Homero de Mello Braga e Júlio Moreira. Não obstante seu prestígio em Curitiba e na Faculdade de Medicina, resolveu transferir-se para o Rio de Janeiro, capital federal e grande centro médico e cultural. Buscava horizontes mais amplos, além de fugir do clima curitibano, desfavorável à sua fragilidade física (sua aparência frágil escondia uma fortaleza, diria, mais tarde. sua sobrinha Laura Pernetta Almeida). Para enfrentar as dificuldades que, por certo, o aguardavam no Rio de Janeiro decidiu-se pelo áspero caminho de expor publicamente sua capacidade, em concursos universitários. Assim, já em dezembro de 1935, quando ainda residia em Curitiba, obteve o título de docente-livre de Clínica Pediátrica Médica e Higiene Infantil da Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil,. No mesmo mês recebeu o título de docente-livre da mesma cadeira da Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Credenciado pelos títulos obtidos na capital federal decide-se a enfrentar o desafio de candidatar-se à docência de Pediatria na Universidade de São Paulo, submetendo- se às provas em fevereiro de 1937, juntamente com Pedro de Alcântara Machado. Os dois candidatos foram aprovados, com elogiosas referências da Comissão Julgadora. Em 1939 transferiu-se de Curitiba para o Rio de Janeiro. Prestou concurso para a cadeira de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, sua grande aspiração. Apresentou a tese Etio-Patogenia do Eritema Nodoso na Infância. Não alcançou o objetivo. Foi aprovado em segundo lugar, sendo vencedor Martinho da Rocha. Na ocasião, Mario Olinto de Oliveira, membro da Comissão Julgadora, convidou-o para chefiar a Residência Médica do Hospital Artur Bernardes, (atual Instituto Fernandes Figueira) órgão do Departamento Nacional de Saúde. Aceito o convite, César passou a residir no próprio Hospital. Ali permaneceu até 1945.
Em 1947 prestou concurso para a cátedra de Clínica Pediátrica Médica da Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, sendo um dos candidatos aprovados. Em 1948 foi nomeado catedrático de Puericultura e Clínica da Primeira Infância da Faculdade Fluminense de Medicina, após concurso. Em 1960 foi designado professor de Clínica Médica e Patologia do Recém-Nascido do curso básico de Saúde Pública do Ministério da Saúde. A carreira universitária de César Pernetta culminou com a transferência, em 1969, da Faculdade Fluminense para a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em reconhecimento de seus títulos e trabalhos. A transferência constitui uma rara exceção na história da chamada Faculdade Nacional de Medicina. Depois da maratona de concursos a que se submeteu em sua vida, concretizou sua maior aspiração por uma honrosa deferência da Congregação, o que só ocorreu duas vezes naquele século.
Permaneceu à frente da cadeira de Pediatria e Puericultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro até sua jubilação em 1976. Durante todo esse tempo chefiou o Departamento de Pediatria e de 1969 a 1972 foi diretor do Instituto Martagão Gesteira.
No ano seguinte à sua aposentadoria, em 1977, exerceu a posição de professor consultante do Instituto Materno-Infantil de Pernambuco, em Recife.
Sua volta a Curitiba não encerrou a atividade didática, tendo pronunciado conferências, participado de congressos e se dedicado à revisão de alguns de seus livros.
No ambiente familiar, viveu seus últimos anos, cercado de carinho e prestígio de seus antigos discípulos e recebendo homenagens que se somaram a tantas outras que foram rendidas ao longo de sua vitoriosa trajetória de vida. Da Prefeitura de Curitiba recebeu Diploma de Mérito, em 1986. No mesmo ano Diploma de Mérito Ético-Profissional foi conferido pelo Conselho Regional de Medicina. A Academia Paranaense de Medicina o fez membro honorário em 1988. O Ministério da Saúde conferiu-lhe a Comenda da Ordem do Mérito Médico por indicação da Universidade do Rio de Janeiro, ainda em 1988.
Necessitando de tratamento cirúrgico especializado foi obrigado a deixar Curitiba e voltar ao Rio de Janeiro, mas voltou a sua terra, onde após longo sofrimento, faleceu em 6 de março de 1993, aos 87 anos de idade.
A figura humana de César Beltrão Pernetta oferece várias faces pelas quais se podem contemplar a natureza multifacetada de seu talento.
No meio médico e estudantil de sua terra natal sempre correu a fama de seu brilhantismo didático, decantado por quantos tiveram oportunidade de ouvir-lhe as aulas, preleções, conferências ou simples diálogos ao pé do leito. Impressionava a todos o contraste entre sua débil figura, a maciez de sua fala e a clareza da exposição, o poder dialético de convencimento e a inefável sedução que exercia sobre o auditório. Estas qualidades são ressaltadas por quantos tenham dado depoimentos sobre sua vida, desde seus alunos, colegas e amigos, grandes figuras acadêmicas, entre as quais muitos dos competidores nos inúmeros concursos que prestou, os quais, em regra, se tornaram amigos.
Seu talento didático manifestou-se, também, na transmissão escrita dos conhecimentos. Fixou suas lições em textos excelentes. Sua obra escrita inclui teses, livros, artigos científicos, conferências e outras publicações avulsas. Seu empenho especial em difundir ensinamentos sobre a alimentação e nutrição da criança levou à publicação de dois consagrados manuais: Alimentação do Lactente Sadio e Alimentação da Criança. Nos livros Distúrbios do Intercâmbio Nutritivo do Lactente e Enterite Aguda na Criança foram abordados temas patológicos do assunto. Terapêutica Infantil e Terapêutica Pediátrica saíram em múltiplas edições, de 1954 a 1987. O tratado Semiologia Infantil aparecido em 1957 teve três edições, seguidas do Semiologia Pediátrica, de 1980. Ainda no campo propedêutico escreveu o Diagnóstico Diferencial em Pediatria cuja 1ª edição foi de 1968. Expôs sua filosofia sobre a educação infantil no Amor e Liberdade na Educação da Criança publicado em 1982, reeditado três vezes. Tinha, sem dúvida, autoridade para escrever o livreto Redação de Trabalhos Médicos, que apareceu em 1971. Sua última publicação, em 1992, foi Paracelso um esboço da vida e obra do alquimista. A produção de artigos na imprensa médica foi, também, riquíssima, iniciou-se logo depois do início de sua vida médica em Curitiba e se alongou até o final de suas atividades. Abrangeu os mais variados assuntos da Pediatria e Puericultura. Cabe ressaltar, entre tantos, os artigos Pelagra na 1ª Infância, publicado no Rio de Janeiro, tendo Helio de Martino como colaborador e Kwashiorkor oder Kindliche Pellagra que apareceu no Münchener Medizinische Wochenschrift 98:31,1956.
A grande influência de César Pernetta no meio universitário e pediátrico brasileiro é referida como “A Era Pernetta”, valorizando o papel que teve na formação de discípulos em todo o Brasil. Na Sociedade Brasileira de Pediatria, no Rio de Janeiro, teve marcada atuação, tendo exercido a presidência em 1942-1943. Apresentou, então, os resultados. do soro citrocloretado na reidratação oral, que havia introduzido no Hospital de Crianças em Curitiba. Este método terapêutico foi amplamente aprovado e atingiu quase todos os Serviços de Pediatria do país, ficando conhecido como Soro Pernetta. A importância da reidratação oral no combate à mortalidade infantil é um dos instrumentos de que se valem as campanhas sanitárias, como as da Pastoral da Criança, iniciativa da Dra. Zilda Arns Neumann, antiga médica pediatra do Hospital César Pernetta.
A Academia Brasileira de Pediatria o homenageou fazendo-o Patrono da cadeira nº 11, cujo primeiro titular foi Eduardo de Almeida Rego Filho.
César Beltrão Pernetta, em Curitiba, ladeado de colegas. Da esquerda para a direita: Azor de Oliveira e Cruz, Jayme Drummond de Carvalho, César Beltrão Pernetta e Álvaro Pinto.