Biografia de

João Vieira de Alencar

  1905         1984

Patrono

  Cadeira 56

  Patrono: João Vieira de Alencar

 

João Vieira de Alencar nasceu em Curitiba, Paraná, em 2 de setembro de 1905, filho de Manoel Vieira Barreto de Alencar e Ismênia Miró. Manoel Vieira de Alencar, natural de Alagoas, foi juiz de Direito, líder político e professor da Faculdade de Direito e um dos fundadores da Universidade do Paraná.

Depois de completar os estudos secundários em Curitiba o jovem João Vieira de Alencar matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro, pela qual se formou em 1929, obtendo o grau de doutor com a defesa da tese Hiperemese Gravídica.

Dois anos após o término do curso médico procurou os dois maiores centros médicos europeus, Paris e Berlim, para aumentar seu cabedal médico e cultural. Em Paris estagiou em serviços hospitalares dos mais afamados na época, do professor Antonin Gosset, na Salpétrière; do professor Jean Louis Faure, no La Pitié e no Larabosière, onde Georges Marion pontificava na Cirurgia Ginecológica. Terminado o séjour parisiense seguiu para a Alemanha. Em Berlim frequentou o Ser- viço de Ferdinand Sauerbruch, no Charité .

Após seu ano europeu Alencar voltou a Curitiba decidido a seguir carreira acadêmica. Dividia sua atividade médica entre a Clínica Cirúrgica e a Ginecologia. Em 1932 obteve em concurso público o título de docente-livre de Clínica Ginecológica da Faculdade de Medicina do Paraná, quando defendeu, com bri- lhantismo, a tese Exploração Radiológica em Ginecologia.

Três anos depois prestou novo concurso que o levou à cátedra da 2ª Clínica Cirúrgica da mesma Faculdade. As atividades hospitalares de sua cadeira passaram a se dar na enfermaria São Jorge do Hospital de Caridade da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, da qual, como membro do Corpo Clínico, era chefe. Em sua atuação didática à frente da 2ª Clínica Cirúrgica Alencar sempre conseguiu que o rigor na exigência do cumprimento do dever de assistentes e alunos não interferisse no clima de harmoniosa convivência que seu temperamento liberal garantia. Em seu discurso de paraninfo da turma de médicos de 1939 afirmava que em Medicina deve predominar o Humanismo, doutrina que encara o homem como uma hierarquia viva – composta de inteligência, coração e vontade - pluralidade de órgãos e faculdades que avançam através de mil perigos, como uma sinfonia para um ideal de beleza. Graças a esta elevação de princípios e a afabilidade no trato que o caracterizou, reuniu em seu Serviço um bom número de assistentes e colaboradores que o acompanharam com dedicação e amizade. Por isso, no momento de seu jubilamento professoral, em 1975, quando me coube saúda-lo citei as primeiras palavras do juramento de Hipócrates, Juro...estimar tanto como a meus pais aquele que me ensinou esta arte, fazer vida comum, e, se necessário, com ele partilhar meus bens, afirmando que aquela homenagem era, antes de mais nada um imperativo ético aos seus discípulos.

A atividade didática de Alencar estendeu-se por quatro décadas. O Serviço manteve-se na Santa Casa de 1935 a 1962, Transferiu-se. para o Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná naquele ano. A inauguração do Hospital de Clínicas representou uma mudança radical no ensino e na prática da Medicina no Paraná, como Alencar costumava afirmar em seus pronunciamentos. A 2ª Clínica Cirúrgica, o sétimo andar, tornou-se não só uma enfermaria, mas um Serviço de Cirurgia no sentido amplo da palavra. Sua atuação como chefe de escola, por longo tempo, desenrolou-se durante uma fase em que os conceitos básicos sobre a arte cirúrgica sofriam inelutável transformação para acompanhar os progressos radicais que ocorriam em todo o mundo. A cirurgia, como recurso quase instintivo contra alguns de nossos males físicos, é tão velha quanto a espécie humana. As bases científicas da arte operatória, que levaram o cirurgião a ombrear com os médicos, são relativamente recentes. Na verdade só depois de 1800, com o aperfeiçoamento da hemóstase, da antissepsia e da anestesia é que se estabeleceu a moderna cirurgia, período heroico, que tem sido chamado o Século do Cirurgião.

A história do desenvolvimento subsequente é quase dos nossos dias. É natural que paralelamente ao acelerado progresso da cirurgia, o conceito da formação ideal e dos requisitos e características do cirurgião fossem revistos. A reflexão sobre as tendências das ideias nos vários centros universitários, deixava entrever duas grandes correntes. A primeira, uma concepção olímpica, almejava a figura do cirurgião completo, dominador dos princípios universais da arte, opondo-se à sua fragmentação em especialidades. Outra, atentando ao desenvolvimento impressionante da técnica, a alargar rapidamente o âmbito de cada uma delas, reconheceu a impossibilidade de se atingir a excelência em todas as áreas e fez decorrer daí o estabelecimento de especialidades cirúrgicas autônomas. Grandes expoentes, grandes figuras humanas personificaram ambas as tendências, e o estudo da evolução histórica no século XX não pode deixar de reverenciar vultos tão diversos como um Ferdinand Sauerbruch em sua obstinada perseguição à figura do cirurgião completo ou de um Harvey Cushing, cientista e virtuose do bisturi que dirigiu seu potencial à consolidação das cirurgias especializadas .Dentro deste contexto é que devemos encarar a atuação de João Vieira de Alencar em nosso meio. Galgando as culminâncias profissionais e universitárias dentro do âmbito extenso da Clínica Cirúrgica, imprimiu à sua cadeira uma orientação decidida, decorrente da análise das tendências que se esboçavam. A cátedra de Clínica Cirúrgica, que lhe coube por concurso, transformou-se no centro germinativo de um Departamento de Cirurgia.

Anteviu o rumo. Antecipou-se à concepção que se havia de impor em doutrina na política de educação superior do país. Os que labutaram na 2ª Clínica Cirúrgica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná, e os que lhe acompanharam as atividades, podem testemunhar que, antes que a lei o exigisse já era ela um Departamento, em que cada área especializada foi delegada a um grupo de assistentes. Estes grupos, prestigiados pela chefia, estimulados pela cátedra, exigidos por atribuições cada vez mais autônomas tornaram-se os núcleos de ensino das especialidades. Consolidou a Cirurgia Geral e do Aparelho Digestivo, inspirou a Cirurgia Torácica e Cardiovascular, apoiou a Cirurgia Plástica e Reparadora, patrocinou a Neurocirurgia e deu alento à Cirurgia Pediátrica.

A estrutura departamental do curso de Medicina do Setor de Ciências da Universidade Federal do Paraná foi implantada pela reforma do ensino em 1973. João Vieira de Alencar foi eleito, a bon droit, seu primeiro chefe e exerceu o cargo de 1973 a 1975. Neste ano aposentou-se da Universidade Federal do Paraná, tendo o Conselho Universitário lhe outorgado título de Professor Emérito.

Além de exercer o magistério superior, Vieira de Alencar participou de inúmeras atividades médicas e sociais. Em 1939 foi um dos fundadores da Casa de Saúde São Vicente, que é atualmente um dos hospitais privados mais antigos do Estado e do qual foi diretor até o fim de sua vida. Nele trabalharam vários de seus assistentes e colegas da Universidade e da Santa Casa, o que garantia um nível técnico elevado à Medicina que ali se praticava. Chefiou, àquela época, o Serviço Médico do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários.

Foi membro do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e teve ativa participação em congressos e eventos médicos nacionais e internacionais.. Entre os trabalhos que publicou, além das teses, destacam-se: Azotemia Cloropênica; Ileus Biliar, Câncer do Seio; Anestesia pelo Evipan; Luxação Congênita do Quadril e Cirurgia da Tuberculose Pulmonar.

Teve importante papel nas atividades associativas da classe médica da cidade. Logo após seu regresso a Curitiba foi um dos fundadores da Sociedade Médica dos Hospitais do Paraná, formada por um grupo de médicos da Santa Casa em 1930. Esta Sociedade em 1931 se uniu com a Sociedade de Medicina do Paraná (que já existia desde 1914) para formar um Sindicato Médico do Paraná. Logo a seguir, em 1933, a classe optou pela criação de uma só entidade médica no Estado – a Associação Médica do Paraná, de cuja vida Alencar sempre participou e da qual foi eleito presidente em 1941-1942.

Quando foram eleitos os membros do primeiro Conselho Regional de Medicina do Paraná, em 1958, Alencar esteve entre os membros efetivos, que o escolheram como seu primeiro presidente.

Foi um incentivador do movimento cooperativista médico no Paraná, tendo sido eleito presidente da Medipar (futura Unimed) por ocasião de sua fundação em 6 agosto de 1971.

De caráter lhano, temperamento liberal, disposição conciliadora, era, entretanto, cioso de suas prerrogativas e exigente no cumprimento das obrigações nas altas posições que exerceu.

João Vieira de Alencar faleceu em 22 de setembro de 1984 aos 79 anos de idade.

Grupo de acadêmicos da Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro no Serviço de Ortopedia do Professor Domingos de Goes. Dentre eles aparecem três paranaenses: Erasto Gaertner, sentado; na extremidade esquerda. João Vieira de Alencar o quarto da fila em pé, e, atrás dele, Mario Braga de Abreu. Foto de 1924.

FBAM